Doce como um figo acabado de apanhar, mas que nos pode rebentar a boca
O maior problema da manipulação é quando ela nos surge vestida de coisa doce e carinhosa. Estamos habituados a reagir a quem é agressivo e prepotente, porque lhe reconhecemos de imediato o pulsar.
Mas quando alguém que amamos, que respeitamos e em quem confiamos, começa lentamente a exibir exigências que não fazia de todo inicialmente, ficamos baralhados e, não raramente, cedemos.
Cedemos hoje aqui, porque é uma coisa pequena, de facto até nem tem muita importância para nós – tentamos assim convencer-nos – e uma cedência pontual digere-se muito melhor do que uma questiúncula amorosa. Acreditamos, até, que no amor todos temos de ceder, o que não deixa de ser verdade. O que fica em causa é se nos faria sentido, antes, que nos dissessem que tais coisas poderiam acontecer. Que não, claro que não, que eu jamais toleraria tal coisa! respondemos imediata e convictamente.
E enquanto estamos na fase de “isto vai passar”, o tempo não pára. E muitas vezes, aquilo que parece ser uma ciumite facilmente controlável, e com alguma graça, até, torna-se numa coisa neurótica e insustentável. Porque todos sabemos como é o ser humano, dá-se-lhe a mão quer tomar o braço, e isso vale para as coisas más, como para as boas. Queremos sempre mais.
E se não evitamos fazer certas coisas que desagradam a quem está connosco, pelo menos não as confessamos. E é um instante enquanto temos uma data de coisas engasgadas, deixa-me cá pensar se posso dizer isto, é melhor não para não dar chatice, mas que raio, isto não tem mal nenhum.
E chega ao dia em que sai tudo cá para fora, de forma completamente desordenada, nada assertiva, aos berros e, talvez, até com insultos à mistura.
Isso, ou arranjamos um/uma amante – na esperança que não nos faça o mesmo.