SeparadorMental

Agosto 6, 2008

V

Filed under: assim — aNa @ 2:51 pm

Doce como um figo acabado de apanhar, mas que nos pode rebentar a boca

O maior problema da manipulação é quando ela nos surge vestida de coisa doce e carinhosa. Estamos habituados a reagir a quem é agressivo e prepotente, porque lhe reconhecemos de imediato o pulsar.
Mas quando alguém que amamos, que respeitamos e em quem confiamos, começa lentamente a exibir exigências que não fazia de todo inicialmente, ficamos baralhados e, não raramente, cedemos.
Cedemos hoje aqui, porque é uma coisa pequena, de facto até nem tem muita importância para nós – tentamos assim convencer-nos – e uma cedência pontual digere-se muito melhor do que uma questiúncula amorosa. Acreditamos, até, que no amor todos temos de ceder, o que não deixa de ser verdade. O que fica em causa é se nos faria sentido, antes, que nos dissessem que tais coisas poderiam acontecer. Que não, claro que não, que eu jamais toleraria tal coisa! respondemos imediata e convictamente.
E enquanto estamos na fase de “isto vai passar”, o tempo não pára. E muitas vezes, aquilo que parece ser uma ciumite facilmente controlável, e com alguma graça, até, torna-se numa coisa neurótica e insustentável. Porque todos sabemos como é o ser humano, dá-se-lhe a mão quer tomar o braço, e isso vale para as coisas más, como para as boas. Queremos sempre mais.
E se não evitamos fazer certas coisas que desagradam a quem está connosco, pelo menos não as confessamos. E é um instante enquanto temos uma data de coisas engasgadas, deixa-me cá pensar se posso dizer isto, é melhor não para não dar chatice, mas que raio, isto não tem mal nenhum.
E chega ao dia em que sai tudo cá para fora, de forma completamente desordenada, nada assertiva, aos berros e, talvez, até com insultos à mistura.
Isso, ou arranjamos um/uma amante – na esperança que não nos faça o mesmo.

Agosto 5, 2008

IV

Filed under: assim — aNa @ 2:43 pm

Os anjos também são gulosos

Maio já estava em todo o seu esplendor, com o tempo a manter-se quente e as flores dos jacarandás a invadirem as calçadas dos passeios.
Havia, assim, um clima propício ao romance. Olhou para o saco das tarefas e descobriu que lhe restavam somente dois papéis. Cada um com um nome diferente manuscrito, de tamanho e textura iguais. Teria de os lançar e deixá-los fazer o seu caminho até à pessoa certa. Decidiu sobrevoar um pouco a cidade, à procura dum sítio que sentisse ser o certo para o fazer. Abandonou-se ao sabor da brisa e da zona da baixa foi voando até aos limites da cidade.
Aí, pegou nos papéis, alisou-os delicadamente e soltou-os ao vento e à sorte do seu destino.
Ainda ficou um tempo a vê-los planar por cima das ruas de trânsito caótico, separando-se ao fim de uns segundos e tomando direcções diferentes.
Com a missão cumprida, decidiu que merecia um gelado!
E partiu em direcção à Antárctida.

Agosto 4, 2008

III

Filed under: assim — aNa @ 7:42 pm

 Escolher é decidir

Hoje, à distância de vários verões já passados, percebo que a liberdade de escolha a que sempre te sujeitei foi exactamente o motivo pelo qual tu não te ligavas.
Eu deixava-te escolher, tu querias que escolhessem por ti. Que não te dessem rumo alternativo.
Não é que isto agora importe. Mas lembrei-me. E não quero esquecer-me de nenhum passo que dei. Acho que um dia isso me dará um certo jeito.

II

Filed under: assim — aNa @ 2:38 pm

Pertenço-me?

Gostava de sentir que não me pertenço, na exacta medida que sei que me pertenço. Que me pertencem as decisões que tomo, as ilusões que crio, as tristezas que me doem.
Mas e a alegria? Pertencer-me-á a alegria? Com quantos terei de repartir o seu contributo? Imensos, sei-o com toda a certeza.
E esses, que são imensos, a quem terei de agradecer o caminho que fizeram até mim? A eles? Só a eles?
A grande dúvida é que, sentindo-me grata, não sei a quem dirigir a gratidão. Atiro-a do meu peito para fora, ao vento, na esperança de que ele a leve a quem de direito. E esse me dê um sinal.

I

Filed under: assim — aNa @ 12:43 pm

Numa manhã de sábado, acabada de chegar a lua nova

Pego nas pedras, tiro-as da terra e uma a uma deposito-as na minha mão. São pequenas, em forma piramidal, e de várias cores.
[Tento, nesse gesto, trazer algo de transcendente para junto de mim. Algo que me faça sentir diferente de todos os outros seres que, iguais a mim, deambulam pela vida que conhecem. Haverá de facto outra? Mais profunda que o dia a dia? Gostaria de sentir o peito cheio. Os pés a levitarem.]
Levo-as com cuidado até à torneira. Está um dia excelente, com calor e sol. Abro a torneira cuidadosamente e lavo-as uma a uma, procurando com isso limpar-me de todas as coisas que deixo acumular durante a semana. E dedico-me à tarefa.
[Já aprendi que a dedicação faz bem.]
De seguida, pego num prato pequeno, transparente, de vidro trabalhado e deposito-as cuidadosamente. Retorno à varanda e escolho um sítio onde o sol bate toda a manhã.
[Acho que a manhã tem uma energia muito mais benéfica que a tarde, embora não seja de todo uma madrugadora. Mas quando o tive de ser, sentia-me muito melhor.]
Sítio encontrado, deixo-as ali a carregarem. E fico à espera daquilo que serei capaz de fazer para que elas me dêem algo.
[Está tudo em mim, procuro sempre relembrar-me. Mas a ânsia de querer ver o que só se sente, por vezes atrasa tudo!]

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